quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A Fabulosa Psicologia Masculina


Esqueça o que ouviu por aí: os homens não apenas são bons ouvintes como são excelentes psicólogos.

Não é uma crônica de guerra dos sexos, mas uma viagem ao maravilhoso mundo do método terapêutico masculino, e qualquer semelhança com o Analista de Bagé não será mera coincidência: Veríssimo nos plagiou a todos.

Como é sabido e notório, o vosso amigo Rant tem passado por complicações médicas extensas. Parei de treinar boxe em fevereiro, por causa de uma inflamação nos joelhos. Depois de mais de um mês de fisioterapia, fui diagnosticado com Síndrome de Wolff Parkinson White. É um defeitinho no sistema de condução elétrica do coração, que cria uma nervatura extra que causa taquicardias. Já tive de 240 bpm, apenas 60 a menos que a freqüência cardíaca de um beija-flor.

Então capoto de carro. Uma laparotomia de emergência, algo de alto risco. Costuma ser eletiva, ou seja, marcada com antecedência devido ao alto risco e numerosas complicações. A minha foi de emergência: cheguei no hospital sujo do acidente, com hemorragia interna, hipotérmico, hipovolêmico (pouco sangue no corpo) e entrando em choque. O médico mal teve tempo de formar uma equipe.

Digamos que não é que eu fosse para ter morrido, mas pode-se dizer que eu preenchi os formulários todos. Apenas não fui aprovado por São Pedro.

Em plena tarde de quarta feira, desde o dia 18 entre hospitais e internação domiciliar, injeções diárias e trocas de curativos, limitação, eu baqueei. Reclamei com um amigo.Que eu ando chorando por bobagem. Que ando numa fossa. Que me sinto inútil. E que minha vida virou um final de temporada do Saint Seyia: armaduras quebradas, quase mortos, ou eu queimo o cosmo e boto pra quebrar, ou eu danço logo de uma vez, por misericórdia.

Eis que entra meu amigo Hitman no MSN, e resolvo abrir meu coração. Ele me ouve pacientemente – eu disse, somos bons ouvintes – e como se fosse um caipira enrolando seu palheiro, dá um suspiro – baforada – e sentencia:

“Bicha.”

Protesto! “Porra meu... não tinha coisa melhor pra dizer não?”

“Está parecendo o Shun de Andrômeda. Segura aí que o Hyoga vai aparecer pra te aquecer o corpo... hahahahahah”

Conversa segue, e ele comenta que ouvia Blink 182 aos 16. “Eu ouvia Metallica, The Cure e Men at Work”.

“E usava maquiagem também?” diz o meu impiedoso amigo do peito. Basta, chega, passei do limite:

“Não... era o batom da sua mãe que me deixava todo manchado”.

Silêncio ensurdecedor. Eu tinha de fazer algo... ele foi um filho da puta comigo mas eu peguei pesado.

“Cara... foi mal pela brincadeira pesada. Mas tu és um gênio: reencontrei meu Eu normal. O das respostas estúpidas!”

“De nada, cara. Qualquer coisa, prende o grito”.

Agora, experiemente racionalizar, arrazoar um macho descornado? Não funciona. Não deu certo com Nietzsche, não iria dar certo comigo. Mas uma alfinetada no seu moral, isso sim: como o Analista de Bagé, que quebrava a “resistência terapêutica” com um chute no saco.

sábado, 25 de julho de 2009

Morphine Is The Light




2,5 miligramas. Retira a dor do corpo, se for uma dor moderada, mas não é o bastante para dores morais.

Eu tenho com medicamentos a mesma relação de respeito que eu tenho com armas de fogo, material inflamável, qualquer coisa que mal usada pode causar um dano indesejado.


Danos só são bons até um ponto. Destruição construtiva.


Não, eu não sou um Zé Droguinha. Mas experimente ir a um plantão, urrando de dor depois de uma cirurgia de abdômen e receber Tylenol porque médico brasileiro considera Morfina algo bom demais para gastar com pacientes. O que eu quero dizer é... precisando, estão aqui. Hoje é o caso. Ter seus intestinos retirados para fora, lavados e recolocados pra dentro, e costurados, pode ser muito dolorido, acredite. Hoje estão doendo.


Tomar morfina em comprimidos não é estiloso como intravenosa. O efeito é o mesmo, mas a intravenosa abraça seu pescoço e ombros, como uma jibóia, e lhe dá um beijo quente na boca. Vamos dizer assim: se eu estou dirigindo um V8, eu não me importo se é um Maverick ou um Camaro. Obviamente preferimos o Camaro, mas o Maverick fará o mesmo efeito.


Mas Morfina, ao menos 2,5mg (é uma dose baixa, acredite) não retira dores morais. Rivotril faria isso melhor. Sexo ficaria num segundo lugar, nariz a nariz.


Codeína como analgésico leve é excelente. 10mg, espere três horas, e tome uma taça de champagne, e você terá a meia hora mais engraçada da sua vida. Não faça isso em casa, você pode morrer. E quando se diz “não faça isso em casa”, isso na verdade significa não faça isso em lugar algum. Faça o que eu digo, não faça de modo algum o que eu já fiz uma única vez, e não faria novamente.


Pode parecer idiota, mas eu não desejo ser invejado. Eu não sou junkie, juro. Comida saudável, exercícios, exceto o cigarro eu seria praticamente um daqueles pentelhos geração saúde. Apenas junte a necessidade ocasional (uma vez por mês, digamos) com a disponibilidade local, e com alguns anos você já tem um relacionamento esporádico, mas consistente o bastante com fármacos para tecer reflexões.



Já viu algum filme de guerra onde a morfina era disputada a tapa, e vigiada para a enfermaria, porque todos queriam ela a todo o custo? É por isso. A iluminação da morfina.


Não sejamos imbecis, moralistas e desinformados, morfina vicia apenas 0,3% dos que a usam. Isso é um índice muito menor que o cigarro ou a cocaína (o primeiro sempre comigo, o segundo, o mais longe que eu puder estar, se possível).


O esforço de sobrevida tem me consumido tanta energia, tanto da minha estrutura, que algo dentro de mim acabou faminto. Mal alimentado, mal amado. Às vezes tenho chorado... ultimamente com certa facilidade. Você quebra um homem por fora, e ele vai precisar deslocar tanta atenção para seus ferimentos exteriores, que os interiores acabam ficando sem atenção, sem cuidado. Deve ser algo do olhar... eu sangro por dentro. Faz tempo, muito tempo.


Não existe morfina moral. E não existe doador de seiva vital.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Mais que mil posts.


Um olhar que diz mais que mil posts desse blog.

Não há photoshop na imagem.

O "truque gráfico" é uma hemorragia no globo ocular causada por uma fratura na parte interior da cavidade orbital.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Insônia



Eu não sou um insone habitual. Costumo deitar na cama e dormir em seguida. Me deito na cama e me despeço do dia, como se não fosse acordar. Como se me despedisse de um inimigo com quem fiz as pazes, e desejo que vá em paz.


Sono pesado, sem sonhos. Eventualmente, sonâmbulo. Na infância era pior. Eu entrava dentro de armários, ou ia até o banheiro e me sentava, com o queixo sobre a mão. Voltava para a cama. Meus pais tentavam não me acordar, e riam-se de tudo no dia seguinte.

Hoje meu sonambulismo é limitado a desligar o despertador. Comecei a ter problemas... apesar de tudo sou um day timmer. Então convenci meus parentes a me acordarem. Pouco adiantou. Eu conseguia persuadi-los, dormindo, a me deixarem continuar dormindo. “Não tenho nenhum compromisso hoje”. “Não era pra me acordar hoje”. Quando não funcionava, ainda dormindo e sonâmbulo, eu praguejava insultos e continuava dormindo. Saía da cama bem depois, fulo da vida, porque não me acordaram.

Com insônia é diferente. Se deita na cama, e não se dorme de modo algum. Você quer desligar, seu corpo não quer.

Culpa da semana. Culpa desses dias. Desses sonhos distantes. Você dorme conforme o dia que teve, e se este dia te força a sonhar acordado para ser suportável, então você já dormiu acordado, e não tem sono.

Culpa da semana. Tudo tinha gosto ruim. A cerveja. A comida. O sal foi salgado demais. O açúcar, doce demais. Eu olhava ao redor, e as pessoas eram como samambaias mortas, secas em um vaso.

A receita que tenho é sempre alguns cálices de vinho. Ou Rivotril. Ou os dois. É o meu “Ctrl+Alt+Del”.

Por quanto tempo isso? Hoje eu não quis. Tomei uma dose pequena de rivotril, e aceitei que não vou conseguir dormir. Estou aqui escrevendo um fato desinteressante com um bule de chá.

Eu acho que poderia fazer algo legal de minha insônia. Quem sabe escreva melhor no futuro, quando estiver insone. Quem sabe eu desenvolva uma segunda personalidade, mas peço que não seja um anarquista fabricante de sabão. Eu tenho sugestões mais produtivas. Quem sabe um bon vivant.

Um night timmer.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

O Júri


Eram cinco da madrugada. No banheiro de lajes brancas, parado em frente à louça da pia, segurava a navalha com a mão um pouco trêmula, o queixo projetado adiante, a lâmina mirando o próprio rosto.

Eu não dormia há três dias. Era um julgamento longo, e o júri agora examinava mais uma evidência, um tímido fio de sangue descendo pela lateral da face. O espelho alegava dolo, apontando para a mão trêmula ainda com a navalha em mãos. Pingos começaram a cair sobre a louça pesada da pia, e dançavam até o ralo.

Eram três dias de memória em depoimento. Havia defensor. Minha mente alega instinto, e pede abrandamento da pena. Tudo o que fiz até hoje foi por instinto, e assim espero convencer o júri que todo e qualquer dos meus atos foi uma interminável cadeia de confusões e ciladas da minha humanidade. E assim declaro que sim, eu me esgueirei noite adentro até aquela mulher por instinto. Eu não poderia ter feito melhor, e espero que entendam, minhas culpas, que o fiz da melhor forma que eu sei. Com bravura incansável foi que obrei laboriosamente pela madrugada, e cada passo de dança foi um mal menor para um bem maior.

E se é que a deixei foi novamente por instinto. Grandes mentiras... ela era uma grande mentirosa... e que tipo de cínico fui eu que relevei cada uma das mentiras. Aparar o amor como um golpe em falso no ar, para distrair, porque o próximo golpe que vem é uma estocada precisa no coração. Eu sempre espero o contragolpe. Amor é esgrima. E o promotor alega que por isso, não dei chance de defesa. Mas ela era uma suicida. Ela havia puxado o gatilho anos atrás, e o cão da arma levou quatro anos indo lentamente em direção à espoleta da bala. Eu a deixei por sobrevivência. Era meu instinto.

Para estes fins eu declaro, que o sabor de ter feito alguma justiça poética foi doce. Havia um sabor doce nisso tudo. Enquanto minha boca dizia "adeus", o grilo em meu ombro dizia "chore por mim... chore... agora deves chorar". Mas até o choro dela era mentiroso.

Deixei o lavabo, e na cozinha o led da cafeteira tinha acabado se apagar-se. Pausa: café fumegante. Esparadrapo no rosto.

O saco de areia pendia na sala pouco mobiliada. Foi também por instinto, eu insisto em minha defesa. Eu não conseguia perdoar a inépcia de Mateus com as luvas. A cada vez que saía de sua guarda com a esquerda, seu nariz se tornava um alvo vermelho e branco, e eu gentilmente mostrei isso a ele. Mirei no bull's eye, e desci sobre ele como um trem de carga descarrilado. O direto quebrou seu nariz em três lugares, fiquei sabendo. É preciso quebrar um nariz ao menos duas vezes para que não sangre em excesso, e a primeira fratura de Mateus foi um presente meu.

Há uma generosidade em mostrar a alguém um erro dessa maneira. Trens de carga...

Eu saía do galpão de reparos toda a noite. O barulho infernal das buzinas, caixas de ferramentas, cada milímetro daquele lugar era recoberto de graxa. Não foi minha a idéia de colocar uma cobra morta dentro do armário de Ademar. "Mas você riu! Você riu!" berrava o promotor. Sim, eu ri. Eu ri até o momento em que lívido, e entre todos os colegas no vestiário, podia-se ver a massa de fezes correr pelas pernas de Ademar. Ele demitiu-se. Eu não pus a cobra em seu armário, eu a matei apenas. "Então foi cúmplice!" Sim eu fui.

Eu devo ir longe nisso? Já são três dias de julgamento. Toda uma trajetória de tolices, e ontem eu fiz trinta e três anos. Ontem eu morri. Eu devo merecer o Prêmio Darwin por ter cooperado com a seleção natural. Por no dia do meu aniversário resvalar no tapete do banheiro enquanto me barbeava, e acertar minha própria jugular. Já faz um dia que meu corpo jaz gelado no piso do banheiro. Ninguém telefonou ainda. A cafeteira ficou ligada, e nas próximas duas horas, um curto circuito irá atear fogo em todo o apartamento. Não posso fazer nada... estou apenas rezando para que o vizinho veja a fumaça antes de sair para trabalhar, e deixar os dois filhos pequenos em casa. Espero que ele veja.

Do meu lado está aquela garota mentirosa que se suicidou. Também a cobra, e também Ademar, que coberto de vergonha caminhou macambúzio até em casa, e não viu aquele caminhão dobrar a esquina.

Estamos os três aqui, esperando meu veredicto.