
Esqueça o que ouviu por aí: os homens não apenas são bons ouvintes como são excelentes psicólogos.
Não é uma crônica de guerra dos sexos, mas uma viagem ao maravilhoso mundo do método terapêutico masculino, e qualquer semelhança com o Analista de Bagé não será mera coincidência: Veríssimo nos plagiou a todos.
Como é sabido e notório, o vosso amigo Rant tem passado por complicações médicas extensas. Parei de treinar boxe em fevereiro, por causa de uma inflamação nos joelhos. Depois de mais de um mês de fisioterapia, fui diagnosticado com Síndrome de Wolff Parkinson White. É um defeitinho no sistema de condução elétrica do coração, que cria uma nervatura extra que causa taquicardias. Já tive de 240 bpm, apenas 60 a menos que a freqüência cardíaca de um beija-flor.
Então capoto de carro. Uma laparotomia de emergência, algo de alto risco. Costuma ser eletiva, ou seja, marcada com antecedência devido ao alto risco e numerosas complicações. A minha foi de emergência: cheguei no hospital sujo do acidente, com hemorragia interna, hipotérmico, hipovolêmico (pouco sangue no corpo) e entrando em choque. O médico mal teve tempo de formar uma equipe.
Digamos que não é que eu fosse para ter morrido, mas pode-se dizer que eu preenchi os formulários todos. Apenas não fui aprovado por São Pedro.
Em plena tarde de quarta feira, desde o dia 18 entre hospitais e internação domiciliar, injeções diárias e trocas de curativos, limitação, eu baqueei. Reclamei com um amigo.Que eu ando chorando por bobagem. Que ando numa fossa. Que me sinto inútil. E que minha vida virou um final de temporada do Saint Seyia: armaduras quebradas, quase mortos, ou eu queimo o cosmo e boto pra quebrar, ou eu danço logo de uma vez, por misericórdia.
Eis que entra meu amigo Hitman no MSN, e resolvo abrir meu coração. Ele me ouve pacientemente – eu disse, somos bons ouvintes – e como se fosse um caipira enrolando seu palheiro, dá um suspiro – baforada – e sentencia:
“Bicha.”
Protesto! “Porra meu... não tinha coisa melhor pra dizer não?”
“Está parecendo o Shun de Andrômeda. Segura aí que o Hyoga vai aparecer pra te aquecer o corpo... hahahahahah”
Conversa segue, e ele comenta que ouvia Blink 182 aos 16. “Eu ouvia Metallica, The Cure e Men at Work”.
“E usava maquiagem também?” diz o meu impiedoso amigo do peito. Basta, chega, passei do limite:
“Não... era o batom da sua mãe que me deixava todo manchado”.
Silêncio ensurdecedor. Eu tinha de fazer algo... ele foi um filho da puta comigo mas eu peguei pesado.
“Cara... foi mal pela brincadeira pesada. Mas tu és um gênio: reencontrei meu Eu normal. O das respostas estúpidas!”
“De nada, cara. Qualquer coisa, prende o grito”.
Agora, experiemente racionalizar, arrazoar um macho descornado? Não funciona. Não deu certo com Nietzsche, não iria dar certo comigo. Mas uma alfinetada no seu moral, isso sim: como o Analista de Bagé, que quebrava a “resistência terapêutica” com um chute no saco.






